Meu primeiro choque de realidade foi aos 8 anos, quando minha babá mudou de cidade. Na época, minha mãe, que é assistente social, não se tocou que eu talvez pudesse estar passando por um daqueles transtornos infantis. Hoje, ela se arrepende por não ter me mandado pra terapia. Era minha primeira experiência com perda.
Tínhamos uma vida bastante confortável, meu pai trabalhava numa usina de açúcar e álcool, e ganhava muito bem. Eu era uma criança de classe média alta, sem muitos problemas. Estudava numa escola particular e fazia cursos caros por fora, além de natação, dança, e essas coisas todas.
Choque de realidade número 2? Papai perde o emprego.
Eu devia ter uns 10 anos, quando isso aconteceu. Não me lembro bem, mas lembro da minha mãe preparando vários cardápios diferentes, variando os ingredientes: num dia ovo, noutro, macarrão.
Na época, meus pais tinham começado a pagar o financiamento da casa, que demoraria uns 15 anos pra acabar. Foi um momento complicado, em que eu via minha mãe chorando, e não podia fazer nada, porque o assunto era de gente grande, segundo ela. Eu só teria que me acostumar com as mudanças.
Ela estava em depressão, tomando remédios fortíssimos, e me lembro bem que ela esquecia muitas coisas; mas, até então, eu não sabia o que estava acontecendo de verdade.
Logo meu pai conseguiu outro emprego e as coisas melhoraram. Claro que não ganhava tão bem quanto antes, mas era o suficiente pra nós quatro. Nesse tempo, a Marina, minha irmã, no auge da adolescência, causava muitos problemas e gritarias lá em casa, o que não me ajudava muito a entender o mundo e as coisas ao redor.
Depois de alguns empregos pequenos, meu pai começou a trabalhar como administrador de um dos maiores e mais importantes hospitais da cidade, e eu me lembro muito bem de ficar andando pelos corredores e de ter livre acesso à UTI. Foi num desses anos que eu perdi o Renê.
Lembro bem de como meu pai me deu a notícia no meio do almoço, dizendo que eu não podia mais ver o meu amigo, porque ele não estaria mais no hospital. Essa foi, sem dúvida, uma das grandes crises de realidade da minha vida: tinha quase 15 anos, estava mudando de colégio, trabalhando, e me descobri apaixonada por alguém que tinha acabado de morrer.
Daí pra frente, não demorou muito pro meu pai ser demitido, mais uma vez. Foi quando minha mãe começou a fazer salgados pra vender, além de trabalhar fora. Todos tinham muito medo que a depressão dela voltasse, e a tratavam com o maior cuidado do mundo, sendo que, nessa época, ela conseguiu ser mais forte que todos nós juntos. Claro, à base de remédios.
Apesar de todas as dificuldades, continuei estudando no melhor colégio particular da cidade, ganhando meia bolsa, trabalhando fora e aguentando as brigas entre meus pais e a minha irmã. Tudo isso gerou algo na minha cabeça, que me fazia querer ser maior e me ver livre logo. Eu simplesmente não entendia como eles podiam gritar tanto!
Eu não me encaixava naquela família, era o que parecia. Não me dava bem com a minha mãe, que, muitas vezes, me criticou pelo meu isolamento, me chamando de arrogante e sem sentimentos. E minha irmã sempre me irritou pela falta de competência ao mentir, causando grandes transtornos lá em casa.
Mentir por mentir, comecei também. Mas, ao contrário da Marina, meus pais nunca descobriram que eu ia viajar escondida, que tinha namoradinhos, ou que saía pra beber. O que fez com que eles sempre confiassem em mim, e depositassem nas minhas costas grandes responsabilidades.
Tinha 17 anos quando fui correndo até a casa da tia Cláudia, chorando e dizendo que a vida não tinha sentido, e que eu não aguentava mais nada. Ela sempre me ajudou muito a superar essas minhas quedas, e acho que é uma das poucas pessoas que me conhece bem. Ela, também, que me deu força pra passar num dos "vestibulares mais difíceis do país".
Meus pais, como havia dito, acreditavam muito em mim. E faltando 2 meses pro fim do terceirão, me deram a notícia que não teriam dinheiro pra me bancar numa universidade particular,e que, então, eu precisaria estudar muito pra passar em algo público.
Acabei passando, acho que pela minha grande vontade de ir embora de casa, mas nem comemorei. Simplesmente fui. Foi quando eu conheci a Mandenha, que, hoje, é uma das pessoas mais importantes da minha vida.
24 Outubro, 2009
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